As bem-aventuranças, como são geralmente chamadas, são descrições das qualidades que devem ser encontradas, todas elas, e de fato o são, em vários graus, na vida dos que se submetem ao domínio soberano de Deus, em Cristo Jesus. Revelam, portanto, as características do caráter do autêntico discípulo do Senhor.
Elas são também uma declaração das bênçãos que já experimentam em parte e que irão gozar mais plenamente no reino eterno os que revelem tais virtudes.
São qualidades espirituais, fruto da ação do Espírito de Deus em nós e a manifestação da abundante graça de Cristo.
As oito qualidades aqui indicadas, não são oito grupos diferentes de pessoas, mas pessoas que têm este conjunto de virtudes (nenhuma delas pode sequer existir de fato sem as demais). Este conjunto de virtudes forma o caráter daqueles que, únicos, serão aceitos pelo divino Rei como seus súditos (vs. 3 e 10), os únicos que poderão ver, sendo Ele invisível (v. 8), os únicos dignos de serem seus filhos (vs. 9).
Conseqüentemente, qualquer pessoa que se diga filho de Deus, ou que diz conhecê-lo, ou pertencer ao seu reino, ou ser membro de seu corpo – a Igreja; em suma, todos aqueles em que seja notória a ausência destas qualidades, é “mentiroso e não conhece a verdade”.
Os humildes de espírito – são os que reconhecem de coração ser “pobres” no sentido de não poderem realizar nenhum bem sem assistência divina e que não têm nenhum poder em si mesmos que os ajude a fazer o que Deus requer deles. Esvaziar-se de si mesmo, ser humilde a seus próprios olhos, ter o espírito de renúncia, de negação do próprio eu, é a primeira lição no aprendizado da vida cristã e a condição básica para o ingresso no reino de Deus, pois deste reino os orgulhosos por sua auto-suficiência são inevitavelmente excluídos.
Os que choram – são os que lamentam tanto os seus próprios pecados e falhas, como o mal tão preponderante no mundo, causando tanto sofrimento e miséria. A simpatia que nasce desta lamentação traz consolação desde agora para aqueles que a praticam. E o dia certamente chegará quando Deus “lhes enxugará dos olhos toda lágrima”.
Os mansos – são aqueles que se humilham diante de Deus por reconhecerem sua total dependência dele. Como conseqüência são gentis no trato com os outros. Moisés revelava este traço de caráter em notável medida; como, também, podia ser visto claramente em Jesus, que era exatamente manso e humilde, e nele, homens e mulheres cansados e sobrecarregados podiam achar alívio e descanso (Mt 11:28-29). Quando Deus tiver destruído todos os que em sua arrogância resistem à sua vontade, os mansos serão os únicos a herdar a terra.
Os que têm fome e sede de justiça – são os que, por ansiarem por ver o triunfo final de Deus sobre o mal e o seu reino plenamente estabelecido, anseiam também por fazer eles próprios o que é justo e reto. Todos estes têm a crescente satisfação de saber que estão avançando e não bloqueando os propósitos de Deus.
Os misericordiosos – são aqueles que estão conscientes de ser indignos recipientes da misericórdia de Deus e que, não fosse por essa misericórdia, eles seriam pecadores condenados. Conseqüentemente, esforçam-se por refletir no seu convívio com outros algo da misericórdia que Deus mostrou para com eles. E quanto mais fazem isto, mais a misericórdia de Deus se estende a eles e estes estendem essa misericórdia para outros..
Os limpos de coração – são os íntegros, livres da tirania do “eu” dividido, e que não ficam tentando servir a Deus e ao mundo ao mesmo tempo. Destes é impossível que Deus se esconda. Vivem como se já pudessem ver aquele que é invisível e a quem, um dia, verão tal como ele é (Hb 11:27; 1 Jo 3:2).
Os pacificadores – são os que estão em paz com Deus, que é o “autor da paz e apreciador da misericórdia”; são os que mostram ser verdadeiramente filhos de Deus, esforçando-se para aproveitar as oportunidades que se lhes apresenta para efetuar reconciliação entre aqueles que estão em desavença.
Aqueles que são perseguidos – são os que sofrem simplesmente por sustentarem os padrões divinos de verdade, justiça e pureza, recusando-se a ajustar-se aos moldes deste mundo ou a curvar-se perante os ídolos que os homens erguem como substitutos de Deus. Como Paulo alertou ao seu discípulo Timóteo: “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3:12); mas a estes Jesus assegura que são cidadãos do único reino permanente, o reino dos céus.
Nos versículos 11 e 12, Jesus alerta seus discípulos que quando ele, o Messias, se retirasse da presença deles, o ódio do mundo, até então voltado contra ele enquanto estava na terra, se voltaria contra seus seguidores (Mt 10:22; 24:9). Estes deveriam alegrar-se muito, sabendo que tal sofrimento seria indicação de estarem eles na linha de descendência dos profetas que anunciaram a vinda do Messias.
Que as bem-aventuranças se constituam num desafio para cada um de nós e que o Santo Espírito nos capacite a vivermos, na prática, essas qualidades.